Por que escrever um manual sobre cenários?

Depois de um longo período sem atualizações, este blog está de volta. Você que me acompanha sabe que focamos bastante no RescueCast, debatendo temas do resgate veicular com os amigos Gheller e Beto e outros tantos convidados. Porém, no podcast não conseguimos explorar de forma contundente alguns assuntos, os quais tratarei aqui de uma forma rápida e que possa ser utilizada por você de alguma maneira! Seja para reflexão ou até mesmo para emprego nas suas atividades como instrutor. 

E não poderia haver tema melhor para essa retomada do que responder uma pergunta que tenho recebido com frequência desde o lançamento do meu manual: afinal, por que escrever um livro inteiro sobre cenários de resgate veicular?

À primeira vista, a pergunta faz sentido. Quando pensamos em resgate veicular, normalmente pensamos em técnicas. Estabilização. Desencarceramento. Atendimento pré-hospitalar. Ferramentas. Novas tecnologias dos veículos. Protocolos.

Raramente pensamos no cenário.

Mas foi justamente essa percepção que me levou a escrever.

Ao longo dos últimos anos, tive a oportunidade de atuar em diferentes ambientes: cursos de formação, treinamentos operacionais, competições nacionais e internacionais, avaliações de equipes e desenvolvimento de cenários para desafios de resgate. Em todos esses lugares encontrei excelentes profissionais. Bombeiros experientes. Instrutores dedicados. Equipes altamente capacitadas.

Mas também encontrei algo em comum: muita atenção ao que acontece durante o cenário e pouca atenção ao que acontece antes dele existir. Quem definiu a posição daquele veículo? Por que a vítima está naquele local? Qual habilidade aquela montagem pretende desenvolver? Qual erro a equipe provavelmente cometerá? O cenário é equilibrado? Ele é coerente? Ele realmente ensina aquilo que se propõe a ensinar?

Percebi que existia uma enorme quantidade de conhecimento sendo transmitida informalmente. Muito do que aprendemos sobre montagem de cenários vinha da observação de outros instrutores, da participação em eventos ou da experiência acumulada ao longo dos anos.

Nada disso é errado,  muito pelo contrário. Foi assim que muitos de nós aprendemos. O problema é que esse conhecimento quase nunca estava organizado.

Em diversas ocasiões vi treinamentos tecnicamente bem-intencionados produzirem resultados limitados porque o cenário não havia sido pensado de forma estruturada. O veículo estava mal posicionado. A vítima não fazia sentido para a dinâmica proposta. Os objetivos pedagógicos eram vagos. A equipe executava uma série de manobras sem que ficasse claro o que realmente deveria aprender. E isso me fez perceber uma coisa importante. O cenário não é o pano de fundo do treinamento. Ele é o próprio treinamento!

Um cenário bem construído consegue desenvolver liderança, comunicação, tomada de decisão, gerenciamento de riscos, raciocínio clínico e habilidades técnicas ao mesmo tempo. Um cenário mal construído pode ensinar comportamentos inadequados, reforçar vícios operacionais e desperdiçar uma excelente oportunidade de aprendizado. Foi nesse momento que comecei a enxergar os cenários de uma forma diferente.

Passei a vê-los como uma ferramenta pedagógica. Uma sala de aula sem paredes. Um laboratório em que é possível errar sem que alguém pague o preço desse erro na vida real. Um espaço em equipes podem testar estratégias, descobrir fragilidades e desenvolver maturidade operacional.

Com o passar dos anos, essa percepção ficou ainda mais forte. Especialmente quando comecei a participar da construção de cenários para competições. Muitas pessoas enxergam os desafios apenas como uma disputa entre equipes. Eu sempre enxerguei algo além disso. Por trás de cada veículo posicionado no box existe uma intenção. Existe uma pergunta. Existe um problema que precisa ser resolvido. Existe uma decisão que precisa ser tomada. O cenário deixa de ser apenas uma representação de um sinistro de trânsito e passa a funcionar como um mecanismo de ensino.

Foi então que surgiu uma inquietação.

Se o cenário é tão importante para a formação de profissionais, por que falamos tão pouco sobre ele? Por que existem livros sobre técnicas de desencarceramento, estabilização e atendimento à vítima, mas quase nada sobre a arquitetura do próprio cenário? Por que tantos instrutores aprendem a montar cenários apenas por tentativa e erro? Por que não documentar esse conhecimento?

O manual nasceu dessa inquietação. Não com a pretensão de apresentar verdades absolutas. Muito menos limitar a criatividade de quem ensina. A intenção foi justamente a oposta. Criar uma base, organizando conceitos e propondo critérios capazes de estimular reflexão. Oferecer uma linguagem comum para quem acredita que cenários são muito mais do que carros amassados e vítimas maquiadas.

O objetivo nunca foi ensinar alguém a copiar cenários. Foi ensinar a pensar cenários, porque cenários podem ser infinitos! As possibilidades são praticamente inesgotáveis. O que precisa ser estruturado não é o resultado final, mas o processo de construção.

Talvez essa seja a principal mensagem que motivou a escrita do manual. No resgate veicular, costumamos dizer que criamos espaços para salvar vidas. Acredito que os cenários fazem exatamente isso antes mesmo da ocorrência acontecer. Eles criam espaços seguros para experimentar, errar, refletir e aprender. E, quando bem construídos, transformam treinamento em prontidão.

Foi por isso que decidi escrever este manual. E é por isso que decidi retomar este blog. Porque algumas discussões merecem continuar para além das páginas de um livro.

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