Por que equipes bem organizadas superam a falta de entrosamento?
Existe uma frase muito comum no resgate veicular: “Precisamos treinar mais técnica.” Ela está certa, porém, está incompleta.
Ao longo dos últimos anos, percebi que equipes tecnicamente excelentes nem sempre apresentam os melhores resultados. Da mesma forma, equipes que dominam o uso das ferramentas podem desperdiçar tempo, gerar retrabalho e criar conflitos simplesmente porque lhes falta algo muito mais difícil de desenvolver: a tática.
Foi exatamente isso que voltou à minha cabeça durante o Desafio Nacional de Resgate Veicular, realizado em Cuiabá. Nossa equipe, a Condá Rescue Team, conquistou o vice-campeonato nacional. Recebemos ainda o prêmio de Melhor Equipe Técnica, além de figurar entre os melhores desempenhos em Comando e Atendimento Pré-Hospitalar.
Mas existe um detalhe que poucos conhecem. Aquela formação havia treinado junta apenas três vezes, pois foram apenas oito manobras completas antes da competição. Qualquer treinador diria que isso é pouco para construir automatismos, entrosamento e comunicação refinada.Então por que funcionou?
Porque decidimos investir menos em decorar movimentos e mais em construir uma forma de pensar.
A técnica responde “como”.
A tática responde “qual, quando e por quê”. Essa diferença parece pequena, mas não é. Dois técnicos podem executar exatamente o mesmo corte. Um deles faz isso no momento certo, já o outro faz cedo demais. Tecnicamente, ambos acertaram. Taticamente, apenas um contribuiu para a evolução da manobra.
O mesmo acontece com estabilizações, acessos, proteção da vítima, gerenciamento de riscos ou escolha da via de desencarceramento. Nenhuma dessas decisões depende apenas de habilidade manual. Todas dependem de leitura do cenário.
A tática reduz o esforço.
Existe uma tendência natural de acreditar que operações rápidas são aquelas em que todos fazem tudo ao mesmo tempo. Na prática, acontece justamente o contrário. Equipes maduras sabem esperar, sabem priorizar, sabem abrir mão de uma tarefa para acelerar outra mais importante. Tenho usado um exemplo para traduzir isso, pois entendo que uma equipe de resgate veicular é como um pit stop da Fórmula 1. Cada integrante domina sua função, mas o sucesso não depende da velocidade individual, uma vez que depende da sincronização. No resgate veicular acontece exatamente a mesma coisa. A pergunta nunca deveria ser: “Quem está livre para fazer isso?” A pergunta correta é: “Essa é realmente a próxima ação que a equipe precisa executar?”
Inteligência tática vence a falta de entrosamento.
Quando percebemos que teríamos pouco tempo para treinar juntos, sabíamos que não conseguiríamos competir em igualdade de condições apenas repetindo aquilo que todas as equipes já faziam. Precisávamos encontrar outra vantagem competitiva e foi aí que concentramos nossos treinamentos na organização da operação. Discutimos prioridades, (re) distribuição de funções, sequenciamento das ações, momentos de comunicação, critérios para mudar o plano, e, principalmente, treinamos tomada de decisão.
Em nenhum momento buscamos decorar cenários ou definir ações de forma mecânica ou até mesmo baseada “no que as outras equipes fazem” ou no que a própria Condá sempre fez. Buscamos criar uma equipe capaz de resolver qualquer cenário, sendo que essa diferença mudou completamente nossa preparação.
A verdadeira velocidade nasce da organização.
Existe uma frase atribuída às forças especiais que gosto muito: “Slow is smooth. Smooth is fast.” O Lento gera fluidez e a fluidez gera velocidade. No resgate veicular, isso significa que equipes organizadas parecem rápidas não porque correm mais, mas parecem rápidas porque desperdiçam menos movimentos. Não existem operadores disputando espaço, não existem ferramentas sendo preparadas sem necessidade, não existem comandos contraditórios. Tudo acontece na sequência certa e a velocidade aparece como consequência. Nunca como objetivo!
O maior erro é treinar apenas movimentos técnicos.
Esse talvez seja o maior aprendizado que levamos da preparação e do trabalho realizado em Cuiabá. Treinar técnicas de desencarceramento é importante, treinar estabilizações é importante, treinar manuseio de ferramentas é indispensável. Mas isso não basta! O treinamento precisa desafiar a equipe a decidir. Quem começa? Quem espera? Quem muda de função? Quando vale a pena abandonar um plano? Quando insistir? São essas perguntas que diferenciam equipes boas de equipes realmente preparadas.
Porque a técnica resolve partes da manobra, mas a tática organiza toda a operação.
O que isso significa para quem instrui ou coordena uma equipe?
Se você é instrutor ou coordena uma equipe de resgate, talvez a pergunta mais importante não seja: “Quais técnicas quero avaliar?”, talvez ela seja outra: “Que decisões quero obrigar essa equipe a tomar?”
Quando um cenário força decisões, ele deixa de ensinar apenas movimentos. Passa a desenvolver raciocínio e é exatamente esse raciocínio que continua funcionando quando o cenário muda, quando os recursos diminuem, quando a composição da equipe é alterada ou quando a pressão aumenta.
Mas há uma segunda lição que Cuiabá me deixou. Não basta estudar técnica, é preciso estudar tática. Não basta conhecer ferramentas, é preciso conhecer pessoas!
Todo coordenador precisa entender as características de cada integrante, suas potencialidades, suas limitações e a melhor forma de combiná-las em uma equipe. A tática nasce desse conhecimento. Ela não é um roteiro pronto, mas uma construção que considera o cenário, os recursos disponíveis e, principalmente, quem está ao seu lado.
E, muitas vezes, isso exige coragem para se reinventar.
Nossa preparação exigiu abandonar modelos que já dominávamos para experimentar uma nova forma de operar. Exigiu confiança mútua para aceitar mudanças, abrir mão de certezas e acreditar que havia um caminho melhor.
Por isso, mais do que parabenizar a Condá Rescue Team pelo vice-campeonato nacional, faço questão de reconhecer a maturidade, o comprometimento e a humildade de cada integrante. Não é simples confiar em uma proposta diferente quando há tanto em jogo. Eles estudaram, questionaram, treinaram, adaptaram-se e entregaram exatamente aquilo que se propuseram a construir: uma equipe.
Parabéns a todos! Sargento Anderson da Silva Gheller, Sargento Otávio Antônio Mores, Cabo Djonka Miglioretto, Sargento Alberto Dal Piva Neto, Soldado Vinícius Spigolon, Soldado Luís Fernando Araldi e Soldado Poliana de Castro. Minha melhor continência a cada um dos senhores!
Os troféus são importantes. Mas o maior resultado foi provar que inteligência tática, dedicação e confiança coletiva conseguem reduzir distâncias que, à primeira vista, pareciam impossíveis. Foi essa a principal conquista da nossa “temporada” até Cuiabá.
E por fim, ela apenas reforçou uma convicção que venho construindo há muitos anos: no resgate veicular, a técnica coloca a ferramenta na mão do bombeiro. Mas é a tática que transforma um grupo de bombeiros em uma equipe.

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