Durante muitos anos, aprendemos a identificar o tipo de encarceramento como uma das primeiras informações de uma ocorrência de resgate veicular. Era quase um protocolo automático. Olhávamos para o interior do veículo, víamos a vítima, classificamos o encarceramento e seguíamos para as próximas etapas da operação.
Com o tempo, porém, comecei a perceber que essa classificação cumpria uma função muito maior do que simplesmente descrever a condição da vítima no interior do veículo. Ela influenciava diretamente as decisões. E todos nós sabemos que boas decisões salvam vidas.
Talvez esse seja um detalhe que passe despercebido para quem está iniciando no resgate veicular, mas a definição correta do tipo de encarceramento estabelece, desde os primeiros minutos da ocorrência, qual será a lógica da operação. Ela influencia a estabilização, a distribuição das equipes, a escolha das técnicas e ferramentas e pode até mesmo mudar de forma momentânea a sequência de protocolos.
Em outras palavras, classificar o encarceramento não é apenas cumprir um requisito. É construir uma estratégia. Muitos manuais de resgate veicular demonstram essa importância ao prever que, durante o dimensionamento da cena, a equipe identifique, sempre que possível, o tipo de encarceramento da vítima. Essa informação faz parte das primeiras decisões da operação, justamente porque orienta as etapas seguintes.
E é exatamente nesse ponto que comecei a me fazer uma pergunta. Será que todas as ocorrências realmente se enquadram nas classificações que utilizamos atualmente?
Durante anos, essa resposta pareceu ser “sim”. Afinal, as classificações existentes atendem muito bem à enorme maioria das ocorrências envolvendo vítimas presas pelas deformações estruturais do veículo. Mas algumas cenas insistiam em mostrar algo diferente com vítimas sob veículos, vítimas prensadas entre dois automóveis, vítimas comprimidas entre um veículo e um obstáculo fixo, vítimas sob máquinas agrícolas ou caminhões…
Em todas essas situações, havia algo em comum. O maior desafio da operação não era simplesmente remover ou afastar as ferragens da vítima. Era controlar uma carga, um veículo e com as próprias ações dos bombeiros ou da equipe de resgate, gerar instabilidade! Essa percepção muda completamente a forma de enxergar a ocorrência.
Quando a vítima está presa pelas deformações estruturais do veículo, a prioridade normalmente recai sobre o acesso, o desencarceramento e a criação de um espaço para extração. Já quando a vítima está sob um veículo ou entre estruturas que exercem compressão direta, a lógica operacional muda completamente. Antes de qualquer corte, expansão ou deslocamento, existe uma pergunta inevitável: Como controlar, sustentar ou retirar essa carga sem aumentar o risco para a vítima e para a equipe?
Nesse momento, a estabilização deixa de ser apenas mais uma etapa da rotina, pois ela passa a ser o centro da estratégia. Perceba que não estamos falando apenas de uma técnica diferente! Estamos falando de um problema operacional completamente distinto.
É justamente por isso que acredito que essas ocorrências merecem uma classificação própria, não apenas para criar mais uma nomenclatura. Mas porque os nomes organizam o pensamento, e o raciocínio organizado produz melhores decisões.
Ao reconhecer que existe um conjunto de ocorrências cuja principal característica é a presença de estruturas que comprimem diretamente a vítima, passamos a construir protocolos específicos, treinamentos específicos, equipamentos específicos e, principalmente, uma mentalidade diferente diante desse tipo de resgate.
É nesse contexto que proponho a discussão sobre o encarceramento tipo físico 3.
Mais do que acrescentar uma nova classificação, essa proposta procura chamar atenção para uma realidade operacional que muitos bombeiros já enfrentam, mas que ainda recebe pouca atenção na literatura técnica.
Talvez o maior erro seja imaginar que classificar o encarceramento serve apenas para descrever uma vítima. Na realidade, essa classificação determina a forma como enxergamos a ocorrência e, consequentemente, a maneira como iremos resolvê-la. Se os problemas evoluem, nossa forma de classificá-los também precisa evoluir. É exatamente dessa necessidade que nasce a proposta do encarceramento tipo físico 3.
No próximo artigo, apresentarei a proposta do encarceramento tipo físico 3 e os motivos pelos quais acredito que essas ocorrências merecem uma classificação própria.

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