No artigo anterior, defendi que a definição do tipo de encarceramento não serve apenas para classificar uma vítima. Ela orienta a estratégia da operação.
Mas essa conclusão me levou, inevitavelmente, a outra pergunta.
Existem ocorrências que exigem uma lógica operacional tão diferente a ponto de justificarem uma nova classificação? Acredito que sim.
Foi justamente dessa reflexão que surgiu a proposta do encarceramento tipo físico 3.
Não porque as classificações atualmente utilizadas estejam erradas. Muito pelo contrário. Elas continuam atendendo adequadamente à enorme maioria das ocorrências de resgate veicular. O problema é que, ao longo dos últimos anos, comecei a perceber um conjunto de situações que, embora frequentemente enquadradas nas classificações existentes, apresentavam desafios operacionais completamente diferentes.
Proponho denominar como encarceramento tipo físico 3 as ocorrências em que a vítima permanece submetida à compressão direta de uma carga cujo controle deve preceder qualquer tentativa de desencarceramento. Nessas situações, o gerenciamento da carga passa a constituir o principal problema estratégico da operação.
À primeira vista, essas ocorrências podem parecer apenas mais um desencarceramento complexo, mas não são. A diferença não está apenas na posição da vítima, ela está no problema que a operação precisa resolver. E essa talvez seja a principal característica do encarceramento tipo físico 3.
Ele não é definido apenas pela localização da vítima e de uma eventual parte do corpo de vítima presa às ferragens, mas pela necessidade de controlar uma carga antes que qualquer outra ação possa ser realizada com segurança.
Enquanto nos demais tipos de encarceramento a condução da ocorrência normalmente está voltada para criar espaço, afastar ou remover partes estruturais ou liberar elementos que aprisionam a vítima, no tipo físico 3 a prioridade muda completamente.
Antes de criar espaço, é preciso controlar a carga! Essa mudança, aparentemente simples, transforma toda a lógica da operação. A estabilização veicular deixa de ser apenas uma etapa preparatória e passa a ocupar o centro da estratégia. O que tradicionalmente denominamos de estabilização primária e secundária abre espaço ainda para a estabilização progressiva. Diferentemente da estabilização primária e secundária, seu objetivo não é apenas preparar a operação. A estabilização progressiva acompanha toda a evolução do desencarceramento, controlando continuamente a instabilidade produzida pelas próprias ações da equipe de resgate.
Cada movimentação precisa ser cuidadosamente planejada. Cada centímetro de deslocamento pode aliviar a compressão sobre a vítima ou agravá-la, se atuarmos de forma desequilibrada. Cada ponto de apoio removido pode alterar completamente a distribuição das cargas.
Em muitas situações, o maior risco deixa de ser o acidente em si, e sim uma eventual decisão inadequada tomada durante o próprio resgate. E é justamente aí que reside a diferença fundamental!
Nos demais tipos de encarceramento, afastar estruturas normalmente representa um avanço na operação. No tipo físico 3, movimentar estruturas sem o devido controle pode aumentar a compressão sobre a vítima, provocar instabilidade e transformar uma operação segura em um cenário de alto risco.
Isso exige uma percepção estratégica diferente desde os primeiros minutos da ocorrência. O comandante passa a avaliar ainda mais a estabilidade antes do acesso, especialmente em veículos que possuam vítimas no seu interior e esmagadas debaixo deles. A equipe técnica passa a estabilizar de forma com que não exista nenhuma possibilidade de emprego de modelos como união solidária ou compactação, sendo que o gerenciamento de riscos atrelados à estabilização assume protagonismo durante toda a operação.
A comunicação entre os pilares de comando, técnico e atendimento pré-hospitalar torna-se ainda mais crítica. E decisões aparentemente simples passam a produzir consequências muito maiores.
Perceba que não estou propondo apenas uma nova nomenclatura. Estou propondo reconhecer que existe um problema operacional específico, com características próprias, riscos próprios e necessidades próprias de treinamento.
Quando identificamos esse conjunto de ocorrências como uma categoria distinta, deixamos de tratá-las como simples variações dos demais tipos de encarceramento e passamos a desenvolver protocolos, equipamentos, técnicas e estratégias direcionadas para essa realidade.
Esse, na minha opinião, é o verdadeiro papel do encarceramento tipo físico 3. Não aumentar a complexidade da doutrina, mas torná-la mais fiel à realidade encontrada pelas equipes de resgate. Toda classificação existe para organizar o pensamento, e como já escrevi anteriormente, um pensamento organizado produz melhores decisões.
Toda evolução doutrinária nasce quando percebemos que determinados problemas operacionais já não são plenamente explicados pelos conceitos existentes. A proposta do encarceramento tipo físico 3 nasce exatamente dessa necessidade. Se ela contribuir para que as equipes reconheçam mais rapidamente esses cenários, tomem decisões mais seguras e desenvolvam estratégias mais adequadas, então já terá cumprido seu principal objetivo.
O encarceramento tipo físico 3 não é definido exclusivamente pela posição da vítima. É definido pelo problema estratégico que ela impõe à operação.

Deixe um comentário