Primária, secundária e reconferência fazem parte de uma lógica consolidada. Mas o que acontece quando, para desencarcerar, precisamos modificar aquilo que estabilizamos?
Poucas ações são tão elementares no resgate veicular quanto estabilizar um veículo antes de iniciar as intervenções. Aprendemos isso desde os primeiros contatos com a atividade. Antes de acessar o veículo, cortar, expandir ou movimentar estruturas, precisamos controlar os movimentos indesejados do veículo e criar condições para que bombeiros e vítimas permaneçam seguros durante a operação.
Mas estabilizar um veículo não significa apenas colocar calços, hastes e cintas sob sua estrutura. Significa compreender quais movimentos podem ocorrer, identificar seus pontos de apoio, avaliar a distribuição das cargas e construir um sistema capaz de controlar a instabilidade existente.
É justamente por isso que tradicionalmente trabalhamos com dois momentos importantes: a estabilização primária e a estabilização secundária.
A estabilização primária responde ao problema mais imediato. Quando chegamos à ocorrência, encontramos um veículo em determinada posição, apoiado sobre alguns pontos e sofrendo ou causando forças em diversas regiões e direções. Existe, porém, uma necessidade que não se pode esperar: chegar até a vítima.
Nesse primeiro momento, portanto, não buscamos necessariamente executar a estabilização mais completa possível. O objetivo é realizar o mínimo necessário de neutralização dos movimentos do veículo para permitir que um integrante da equipe acesse rapidamente seu interior e inicie a avaliação da vítima em condições aceitáveis de segurança.
A estabilização primária cria condições para o acesso de um socorrista e é justamente enquanto essa avaliação acontece no interior do veículo que a estabilização continua evoluindo do lado de fora.
Enquanto o socorrista avalia a vítima, identifica seu tipo de encarceramento e coleta informações que ajudarão na definição da estratégia e dos planos de desencarceramento, os demais integrantes da equipe trabalham no aprimoramento da condição inicial de estabilidade. Entramos na estabilização secundária.
Seu objetivo é melhorar e complementar aquilo que foi realizado inicialmente, construindo uma condição de estabilidade mais adequada para as intervenções que ocorrerão especialmente durante a fase de desencarceramento. Portanto, a diferença entre as duas não está apenas na quantidade de equipamentos e acessórios utilizados ou no número de pontos de estabilização.
Existe uma diferença de finalidade e também de momento operacional e isso precisa ficar claro! A estabilização primária busca o mínimo necessário para permitir o acesso rápido e seguro à vítima. A estabilização secundária aprimora essa condição enquanto a avaliação acontece, preparando o veículo para as intervenções de desencarceramento.
Essa dinâmica é importante porque demonstra que a estabilização não precisa atrasar o atendimento da vítima. As ações acontecem simultaneamente. Enquanto uma parte da equipe trabalha dentro, avaliando a vítima e produzindo informações para a tomada de decisão, outra trabalha fora, aprimorando a estabilização e preparando o sistema para aquilo que virá a seguir.
Até aqui, os conceitos funcionam muito bem. Mas existe uma pergunta que começou a me incomodar nos últimos anos: o que acontece com essa estabilização depois que começamos a modificar o veículo e o próprio cenário encontrado?
Quando realizamos um corte, retiramos uma porta, afastamos uma estrutura ou modificamos algum ponto de apoio, não estamos apenas executando uma técnica de desencarceramento. Estamos alterando o sistema que havíamos estabilizado.
Os pontos de apoio podem mudar, a distribuição das cargas pode mudar e as estruturas que inicialmente contribuíam para a estabilidade podem deixar de existir. É justamente por isso que a estabilização secundária não deve ser entendida como uma condição que, uma vez estabelecida, simplesmente permanece válida até o final da ocorrência. A estabilização precisa ser reconferida durante toda a operação.
À medida que portas, teto, colunas ou outros componentes são removidos, que estruturas são afastadas ou que pontos de apoio são alterados, a equipe precisa verificar se os sistemas instalados continuam cumprindo sua função. Calços podem perder contato, cintas podem perder tensão, hastes podem exigir ajustes e pontos inicialmente seguros podem deixar de oferecer a mesma condição de estabilidade.
Essa reconferência não representa uma nova forma de estabilização, uma vez que ela faz parte da manutenção da própria estabilização executada. O cenário muda e a equipe acompanha essas alterações, corrigindo e ajustando o sistema sempre que necessário para preservar a condição de segurança durante o desencarceramento. Na maioria das ocorrências, essas alterações podem ser administradas a partir da estabilização construída e de seu acompanhamento durante a operação.
Mas algumas situações levam esse problema a outro nível. E foi justamente aí que a discussão do artigo anterior, sobre o encarceramento tipo físico 3, começou a modificar também a maneira como passei a enxergar a estabilização.
Quando propus essa classificação, parti da ideia de que existem ocorrências nas quais a vítima permanece submetida à compressão direta de uma carga e em que o gerenciamento dessa carga passa a constituir o principal problema estratégico da operação. Essa definição é importante porque modifica a lógica da ocorrência desde os primeiros minutos, sendo a estabilização um dos melhores exemplos para demonstrar por quê.
Elevar um veículo não é novidade, sustentar uma carga não é novidade, construir ou modificar pontos de apoio também não é novidade. Todas são técnicas conhecidas e utilizadas há muito tempo no resgate. Mas, o que muda no TF3 é o papel que essas ações passam a ocupar dentro da operação.
Quando a própria carga é responsável por manter a vítima encarcerada, movimentá-la deixa de ser uma ação complementar, passando a fazer parte do próprio desencarceramento e criando uma situação bastante particular.
Nós estabilizamos um sistema para, logo depois, precisarmos modificá-lo com nossas ações. Para criar espaço, talvez seja necessário elevar a carga. Ao elevá-la, alteramos seus pontos de apoio e a distribuição de forças, sendo obrigados a sustentá-la em uma nova posição. A experiência acumulada nos últimos anos, em treinamentos, cursos, desafios e ocorrências, tem demonstrado justamente isso: ao movimentarmos a carga, criamos uma nova posição veicular que exige também uma nova condição de estabilidade. Nossas ações geram instabilidade na cena. Perceba a diferença!
Não estamos apenas acompanhando pequenas alterações produzidas pelo desencarceramento. Estamos modificando de maneira intencional e, algumas vezes, significativa a própria condição que havíamos estabilizado. É exatamente por isso que considero tão importante discutir o TF3 como uma classificação própria.
Alguém poderia perguntar: se já sabemos elevar veículos, sustentar cargas e utilizar sistemas de estabilização, por que precisamos de uma nova definição de encarceramento? Porque classificar corretamente o problema modifica a forma como organizamos técnicas que já conhecemos.
A inovação nem sempre está em criar uma ferramenta ou uma técnica nova. Às vezes, ela está em reconhecer que determinado problema exige que conhecimentos já consolidados sejam organizados sob uma lógica operacional diferente.
No TF3, identificar desde o dimensionamento da cena que o gerenciamento da carga será determinante permite antecipar recursos, selecionar sistemas de estabilização adequados, estabelecer áreas de segurança, planejar a elevação e compreender que cada movimento produzido poderá exigir uma nova condição de sustentação.
Nesse contexto, estabilizar deixa de significar apenas preparar o veículo para o desencarceramento, pois a própria estabilização passa a acompanhar a transformação necessária para que o desencarceramento aconteça. Surge, então, um aparente paradoxo.
Para liberar a vítima, precisamos produzir exatamente aquilo que a estabilização tradicionalmente procura neutralizar: movimento. Mas o objetivo da estabilização nunca foi simplesmente impedir todo e qualquer movimento. Ou seja: seu verdadeiro propósito é impedir o movimento indesejado!
Quando elevar ou deslocar uma carga é necessário para liberar uma vítima, o movimento deixa de ser um problema por si só. O problema passa a ser permitir que ele aconteça com o devido controle. Por isso, possivelmente a pergunta mais adequada não seja apenas: “O veículo está estabilizado?”, sendo que talvez precisemos perguntar: “O sistema está estabilizado para o próximo movimento que pretendemos realizar?”
Essa pequena mudança de pergunta (e de visão) produz uma diferença enorme na maneira de interpretar determinadas operações. A estabilização primária continua fundamental, pois permite o acesso rápido e seguro à vítima. A estabilização secundária também, pois aprimora essa condição enquanto a avaliação acontece e prepara o veículo para o desencarceramento.
Mas o TF3 evidencia uma situação em que o próprio desencarceramento pode exigir que a condição de estabilidade seja profundamente modificada durante a operação. Elevar, sustentar, estabilizar novamente e avançar, repetindo esse processo quantas vezes forem necessárias até que a carga deixe de constituir o encarceramento da vítima.
Talvez seja justamente aqui que uma ação tradicionalmente consolidada passe a exigir uma forma diferente de ser pensada.
Porque, se para liberar a vítima precisamos modificar progressivamente a carga, seus pontos de apoio e sua condição de estabilidade, talvez primária e secundária já não sejam suficientes para explicar tudo aquilo que estamos fazendo durante a operação.
Se a estabilização precisa evoluir à medida que a carga se movimenta, como devemos compreender esse processo? É justamente dessa necessidade que surge o conceito que quero discutir no próximo artigo: a estabilização progressiva.

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